quarta-feira, 25 de março de 2009

AMILENISMO: Parte 4 - DUAS PASSAGENS CONSIDERADAS DECISIVAS PELOS MILENARISTAS - Romanos 11

IMPORTANTE: O texto a seguir é de autoria de Robert B. Strimple, professor de Teologia Sistemática no Westminster Theological Seminary.

ROMANOS 11

Os pré-milenaristas e os pós-milenaristas apelam para essa passagem como provedora de apoio significativo à sua posição. George Ladd, por um lado, insiste que “há duas passagens no NT que não podem ser evitadas”,[26] as quais apontam claramente para uma perspectiva pré-milenar; uma delas é Romanos 11:26. John Murray, por outro lado, tem sido considerado com freqüência um pós-milenarista de “um-texto”, com base em sua interpretação da frase “vida dentre os mortos” de Romanos 11:15, como uma expressão figurada que fala acerca de uma “aceleração sem precedente do mundo, na expansão e sucesso do evangelho”, resultante da “recepção de Israel novamente no favor e benção de Deus”.[27]
Contudo, deveria ser enfatizado que a conclusão de Paulo em Romanos 11, que prediz uma futura conversão em massa do Israel étnico antes do retorno de Cristo, não prova, por si só, a correção de qualquer posição milenar particular. Afinal, essa explanação não foi apresentada somente por pré-milenaristas e pós-milenaristas, mas também por alguns destacados amilenaristas. Por exemplo, Geerhardus Vos vê o apóstolo falando nesse capítulo da “recepção da maioria de descrentes judeus no favor divino”, uma conversão nacional “em grande escala em um predeterminado ponto no futuro”.[28] Mais recentemente Stanley Grenz insistiu que “o apóstolo antecipa claramente a futura conversão de Israel em grande escala, um evento que introduziria um glorioso dia para o mundo inteiro”. Grenz, porém, nota que tal esperança “não requer um reinado terrestre milenar de Cristo, pois a conversão de Israel poderia facilmente preparar tanto para a inauguração do Estado eterno, quanto para a dourada era terrena”.[29]
A alegação de Grenz de que em Romanos 11 o apóstolo prediz “claramente” uma futura conversão nacional de Israel é discutível, como veremos. Mas o que é inegavelmente claro é que em toda essa seção da epístola, na qual Paulo focaliza especialmente a questão do lugar dos judeus no plano divino de salvação (caps. 9-11), ele não diz uma palavra sobre o retorno dos judeus à Terra Prometida, ou sobre um reino milenar no qual Cristo reinará em Jerusalém; nem há ali referência clara à “era dourada” antes do retorno de Cristo, na qual este mundo será amplamente cristianizado. O amilenarista pode “relaxar” enquanto estuda essa passagem, sabendo que as posições milenares não estão em jogo.
Mas precisamos perguntar se realmente a intenção de Paulo, em Romanos 11, é predizer a conversão futura do Israel nacional. Antes de considerar essa questão, temos de nos recordar do contexto em que o argumento desse capítulo aparece.
Em Romanos 1, o apóstolo fala do evangelho como o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, “primeiro do judeu [...]” (1:16). Mas Paulo era sensível ao fato de que essa reivindicação poderia ser contestada pela grande maioria dos judeus. Ele bem sabia da objeção: “Se a vinda do Messias deveria marcar uma era de grande benção para Israel, como explicar que os judeus rejeitaram esse a quem você chama de Messias, Paulo? Os judeus não parecem ter sido abençoados por ele”. João Calvino também expressou essa contradição: “Ou [...] não há qualquer verdade na promessa divina, ou [...] Jesus, a quem Paulo pregava, não é o Cristo de Deus, que tinha sido particularmente prometido aos judeus”.[30] Esse é um “problema apologético” que Paulo enfrenta com franqueza nos capítulos 9–11.
No capítulo 9:1-5, Paulo inicia sua resposta pelo reconhecimento de que Israel ainda era realmente escolhido por Deus e assim o possuidor das mais elevadas bênçãos espirituais, e pelo reconhecimento, com grande tristeza, de que seus companheiros judeus (em sua maioria) não estavam agora usufruindo a benção da salvação em Cristo. Mas, iniciando no versículo 6, ele rejeita a implicação falsamente extraída desse fato: “Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel”.
Como poderia Deus rejeitar uma nação a quem havia escolhido? A resposta de Paulo: Eleição e nacionalidade não são igualmente inclusivas. Que Israel seria abençoado, não significa necessariamente que toda a nação seria bendita. O verdadeiro Israel consiste nos filhos da promessa, a eleição da graça, e eles foram abençoados. Paulo fornece uma série de exemplos para mostrar que os meros descendentes físicos de Abraão não têm garantia a posse de bênçãos prometidas ao patriarca.
Começando no capítulo 9:30, o foco do argumento de Paulo muda da eleição da graça de Deus para a resposta de homens e mulheres – ou da fé, que olha para a justiça que Deus provê, ou da incredulidade, que busca estabelecer sua própria justiça. O judeu será recebido por Deus na mesma base que o gentio (10:11-13); o problema dos judeus não é que não tiveram o evangelho anunciado a eles; antes, eles não creram no evangelho (10:16-21).
No inicio do capítulo 11, o apóstolo repete o argumento do capítulo 9. Deus tem seu verdadeiro Israel, seus eleitos, mas essa eleição não é coextensiva a toda nação. O próprio Paulo é um exemplo de judeu eleito (11:1). Até mesmo Elias aprendeu que o remanescente eleito é contado como sete mil em seus dias, “hoje há também um remanescente escolhido pela graça” (11:5). “Que dizer então?”, Paulo conclui no versículo 7: “Israel não conseguiu aquilo que tanto buscava, mas os eleitos o obtiveram. Os demais foram endurecidos...”
Muitos comentaristas, porém – não apenas milenaristas, como pudemos notar –, vêem o argumento de Paulo tomando um novo rumo no versículo 11. Com freqüência, o capítulo 11 é esboçado deste modo: Paulo responde à questão proposta no versículo 1 (“Acaso Deus rejeitou o seu povo?”), declarando que a rejeição dos judeus não é total (v. 1-10), tampouco final (v. 11-32). Mas o fato é que Paulo consistentemente apresenta apenas uma resposta nos capítulos 9–11, a saber, que a rejeição de Israel não é total e que nem todos os de Israel são de Israel. Romanos 11 trata do lugar de Israel nos propósitos redentivos de Deus no tempo presente, e não em um tempo futuro.
Naturalmente, para estabelecer essa conclusão seria necessária uma análise cuidadosa do capítulo 11, o que não podemos fazer aqui.[31] Podem ser observados brevemente apenas dois ou três pontos cruciais.
Como já foi indicado, Paulo responde à questão proposta no versículo 1 (“Acaso Deus rejeitou o seu povo?”), não ao apontar um tempo futuro quando a graça de Deus alcançará, afinal, os judeus, mas, em vez disso, ao marcar o presente, para si mesmo, como “Prova A” da salvadora graça de Deus (v. 1), para os judeus remanescentes “no tempo presente” (v. 5), e – nos versículos seguintes ao alegado “ponto crucial” em seu argumento (v. 11) – para seu próprio ministério aos gentios, cujos efeitos despertam ciúmes nos judeus (veja especialmente os versículos 11-32, de forma que, ao longo de todo o tempo antecedente ao retorno de Cristo, as águas divinas de salvação continuamente impactam o dique dos gentios e retornam aos judeus.[32]
No início desta seção, ao dar uma resposta negativa à pergunta feita no versículo 11, Paulo anuncia o verdadeiro propósito do tropeço de Israel; e, assim fazendo, ele esboça em uma sentença o ensino do restante do capítulo: “Novamente pergunto: Acaso tropeçaram para que ficassem caídos? De maneira nenhuma! Ao contrário, por causa da transgressão deles, veio a salvação para os gentios, para provocar ciúme em Israel” (v. 11 e 12). Isso sumariza todo o argumento de Paulo nos versículos 11-32: Não tente complicá-lo!
Na conclusão culminante desta seção, quando Paulo faz um síntese de seus argumentos nos versículos 30 e 31, ele novamente recorre ao divino “movimento de onda”. Observe especialmente as três vezes que a palavra “agora” aparece nesses versículos:[33]
Assim como vocês, que antes eram desobedientes a Deus, mas agora receberam misericórdia, graças à desobediência deles, assim também agora eles se tornaram desobedientes, a fim de que também recebam agora misericórdia, graças à misericórdia de Deus para com vocês.
Essa declaração sintética torna claro que a preocupação do apóstolo no capítulo 11 não é predizer o futuro, mas explicar o motivo e o propósito de seu presente ministério.
O ministério de Paulo se constitui desse processo “movimento de onda”, ao qual Paulo alude no versículo 25.[34] Esse é o procedimento que está em foco quando Paulo escreve no versículo 26: “E assim [...]” (literalmente, “E esse é o modo [...]”). A combinação das palavras gregas que Paulo usa aqui (kai houtos) nunca é utilizada para se referir à seqüência temporal (“e então [...]”), mas sempre para fazer alusão quer ao relacionamento lógico, quer a maneira pela qual algo é feito.
A declaração de Paulo no versículo 25 de que “Israel experimentou um endurecimento em parte, até que chegue a plenitude dos gentios”, é muitas vezes compreendida como ensinando que depois da plenitude dos gentios ser cumprida, o endurecimento que caiu em parte sobre a nação será suspenso, e Israel, a nação, se converterá. Mas não há nada na palavra grega “até” que indique a idéia de uma conversão nacional futura de Israel. Essa idéia teria de ser explicitamente ensinada em algum lugar no contexto, para podermos abordá-la aqui. Isso simplesmente não pode ser lido no “até que” da frase. Como matéria de fato, de acordo com seu uso comum, a preocupação do “até que” da frase não está em uma situação nova que existirá após o fim da presente era, mas na situação que ocorrerá antes do fim, e por todo o caminho até o fim do tempo presente. Como nota Joachim Jeremias: “De fato, no Novo Testamento [essa frase grega] regularmente apresenta uma referência ao alcance da meta escatológica”.
A esse respeito, veja Apocalipse 2:25,26: “Tão-somente apeguem-se com firmeza ao que vocês têm, até que eu venha. Àquele que vencer e fizer a minha vontade até o fim darei autoridade sobre as nações” (grifo do autor; cf. também Lc 21:24; 1Co 11:26; 15:25). Como Palmer Robertson escreveu:
“Endurecimento [...] até”, é muitas vezes compreendido como assinalando o começo de um novo estado de coisas com relação a Israel. Raramente tem sido considerado que “endurecimento [...] até” deveria naturalmente ser interpretado como escatologicamente categórico em seu significado. A frase não insinua um novo começo após um término; ao invés disso, a continuação de uma circunstância prevalecente para Israel até o fim do tempo.[35]
O que o apóstolo Paulo ensina em Romanos 11:25 é que o endurecimento por parte do Israel étnico continuará até que o número completo dos gentios tenha vindo.
Enfatizamos que o tema de Paulo nesse capítulo é o processo do “movimento de onda”, pelo qual a salvação vem tanto para gentios quanto para judeus por intermédio desta era evangélica. Embora esse seja um processo que está agora em operação, ele é um processo. Quando Paulo fala da “plenitude” de Israel (v. 11), “todo Israel” (v. 26), e a “plenitude” dos gentios (v. 25), ele está olhando para a conclusão do processo e de seus resultados. De acordo com o apóstolo, a gloriosa bênção que será o resultado da plenitude dos eleitos gentios e da plenitude dos eleitos judeus, agregados à família de Deus pela fé, será nada menos do que “vida dentre os mortos” (v.15). Isto é, o dia da ressurreição terá chegado!
Contra a sugestão pós-milenista de que “vida dentre os mortos”, em Romanos 11.15, refere-se à “era dourada” a ser introduzida após a conversão nacional de Israel,[36] surge o que seria uma objeção insuperável. Como essa era pode vir após a plenitude dos gentios e dos judeus ter chegado? Precisamos compreender o termo “plenitude” (do grego pleroma) em seu sentido completo. Para Paulo, esse é um vocábulo repleto de um significado pleno e rico de consumação. Com a entrada da plenitude de Israel e dos gentios, propósitos redentivos de Deus estarão cumpridos. Não haverá então período algum adicional à história, para delongar a realização das bênçãos da redenção.

continua...

[26] Historic premillennialism, p. 27.
[27]
The epistle to the Romans, vol 2 (Grand Rapids: Eerdmans, 1965), p. 84, 81.
[28]
The pauline eschatology (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformad, reimp. 1991[1930]), p. 87-8.
[29]
The millennial maze, 171.
[30]
The epistles of Paul the apostle to the Romans and to the Tessalonians, trans. Ross MacKenzie (Grand Rapids: Eerdmans, 1960), p. 190.
[31] Uma análise especialmente útil é apresentada por O. Palmer Robertson em
Perspectives on evangelical theology, (org.) Kenneth S. Kantzer e Stanley N. Gundry (Grand Rapids: Baker, 1979), cap. 16, Is there a distinctive future for ethnic Israel in Romans 11?
[32] V. Herman Ridderbos,
Paul, trad. John Richard de Witt (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), p. 354-61.
[33] Existem manuscritos primitivos que não incluem o terceiro “agora” (embora o texto dos mais importantes dentre eles,
p46, não esteja completamente correto). Mas a combinação do sinaítico, vaticano e o manuscrito original grego de claromontano, todos incluindo o terceiro “agora”, é uma evidência externa significativa. Considerando do ponto de vista da evidência interna, parece mais provável que o “agora” foi omitido pelo escriba, que achou que ele dificilmente se ajustava ao fato da descrença dos judeus da época, e que fora acidentalmente inserido como uma repetição do precedente “agora”. (A palavra hysteron, “depois”, foi interpolada nesse ponto em alguns manuscritos que são claramente bem posteriores – uma indicação da dificuldade que algum escriba posterior teve com a declaração apostólica diante dele.) Parece haver boa razão, portanto, para ver o terceiro “agora” como parte do texto original, como o fazem o Novo Testamento Grego da UBS, a NVI e a NASB.
[34] Thomas Schreiner pergunta: em “The Church as the New Israel and the future of ethnic Israel in Paul”,
Studia biblica et theological (13 abril de 1983), p. 26, “Como a salvação de todo eleito da história de Israel é um mistério?” Mas o mistério não é o fato de sua salvação, mas o modo, o método que Deus está usando para salvá-los.
[35] Is there a distinctive future for ethnic Israel in Romans 11?, p. 220.
[36] V. o comentário de John Murray citado no início desta seção. Essa é a interpretação dada nos comentários sobre Romanos por David Brown, Frederick Godet, Robert Haldane, Charles Hodge e William G. T. Shedd. V. Iain H. Murray,
The Puritan hope (Edinburgh: Banner of Truth, 1971), para índice das páginas desse volume, em que essa interpretação de Romanos 11:15 pelos escritores puritanos pode ser encontrada.

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