sábado, 6 de fevereiro de 2010

A Igreja, Israel, e Teologia da “Substituição” - Parte 1

Importante: O texto a seguir é de autoria de Sam Storms, Doutor em Teologia Histórica pelo Seminário Teológico de Dallas.

Recentemente um amigo me escreveu pedindo a minha opinião sobre se Israel tem ou não direito à Terra Santa. Ou seja, pode Israel apelar à aliança feita com Abraão, Isaque e Jacó para justificar a sua presença e posse da terra da Palestina? Meu amigo questionou se o ponto de vista que eu defendo é o que muitos chamam de teologia da “substituição”. Deixe-me aproveitar a oportunidade para abordar a questão.
Antes de iniciar, duas palavras de introdução são necessárias. Primeiro, eu quero fazer um apelo a todos os que se engajam neste debate a fim de que o façamos com civilidade e generosidade para com aqueles de quem discordamos, seja de que lado for. Faço este pedido porque eu tenho notado que o que veio a ser conhecido como “Sionismo Cristão” nos expõe a acusação de anti-semitismo ou uma cegueira induzida por demônios por estarmos em desacordo com esta posição. Eu espero que todos possamos concordar que este é um problema que requer um exame cuidadoso e paciente das Escrituras juntamente com uma boa vontade em dialogar com a mente aberta.
Segundo, recentemente enquanto eu estava ministrando na Georgia eu li um artigo perturbador no The Atlanta Journal-Constitution (quinta-feira, 27 de outubro, 2005).[1] Então, novamente, um dia depois eu li uma notícia similar no The Drudge Report.[2] Ambos os artigos informaram que o presidente do Irã, Mahmoud Ah-madinejad, pediu para Israel ser “varrido do mapa.” Ele também denunciou as tentativas de reconhecer Israel e/ou normalizar as relações com esta nação. De acordo com o artigo, o presidente iraniano declarou que:
“Qualquer um que reconheça Israel vai queimar no fogo da fúria da nação islâmica.”
Depois de vários chefes de estado denunciarem o presidente iraniano por estes comentários, manifestações em massa eclodiram em cidades iranianas que expressaram raiva e desprezo pela existência da nação de Israel.
Deixe-me ser perfeitamente claro. Eu espero e oro para que todos os cidadãos americanos, sejam eles cristãos ou não, possam estar firmes em sua oposição a esta espécie de mal e retórica irresponsável. Eu acredito que Israel tem todo o direito de existir e florescer como uma nação, e eu espero que os Estados Unidos possam manter a sua vigilância em defesa de Israel contra todas essas ameaças islâmicas e ataques futuros.
Declaradamente, então, eu acredito que Israel tem o direito de existir na terra e que temos uma obrigação moral e política em estar com ele contra todos os inimigos. Mas isto não é a mesma coisa que dizer que Israel tem um direito bíblico ou pactual ao território sobre o qual tanto sangue foi derramado nos últimos anos (na verdade, nos últimos séculos). Tampouco aborda a questão de que papel, se houver, a “terra prometida” terá no propósito redentivo de Deus para o seu povo e para este mundo. Para este problema específico, volto-me agora.
Primeiro, eu acredito que quando Deus estabeleceu sua aliança em Gênesis 12, Ele afirmou que a semente (algumas vezes traduzido por “descendência”) de Abraão iria herdar a terra de Canaã (entre outras coisas) em cumprimento da promessa.
Mas nunca devemos ler tais promessas, ou qualquer coisa no Antigo Testamento, como se Jesus não tivesse vindo e o Novo Testamento não tivesse sido escrito. Ou, para ser mais claro, o Antigo Testamento sempre deve ser lido a luz do Novo. Eu nunca li tais textos veterotestamentários sem imediatamente perguntar:
“Será que o N.T. adiciona luz sobre como eu entendo a natureza de tais promessas e seus destinatários?”
Há vários textos que lançam luz sobre como devemos entender a aliança feita com Abraão e seus descendentes.

1 – Considere Romanos 9:6-7. O contexto dessa passagem é a resposta de Paulo à acusação de que não se pode confiar em Deus, porque muitos israelitas, seus “parentes segundo a carne” (9:3), estão na incredulidade. Se não é possível confiar em Deus para cumprir sua promessa de aliança com o Israel do A.T, como pode ser possível confiar nEle para cumprir qualquer de suas promessas para a Igreja do N.T.?
Ou ainda, poderíamos colocar dessa forma: Se Israel é o povo da aliança de Deus, a quem tantas glórias e privilégios foi dado (Romanos 9:4-5), por que são tão poucos os israelitas salvos? Porque tantos deles são “anátemas, separados de Cristo?” Será que a Palavra de Deus falhou? Será que a promessa da aliança de Deus e Seu propósito eterno vieram para nada? A rejeição de Jesus Cristo pela maioria dos israelitas tem frustrado o propósito de Deus? Foi a confiabilidade e finalidade da Palavra de Deus prejudicada pela incredulidade de tantos Judeus? A resposta de Paulo à pergunta é um sonoro NÃO!
Se a promessa e aliança da palavra de Deus é que todos os israelitas étnicos, ou seja, todos aqueles que são descendentes físicos de Israel devem ser salvos, então, claramente o Seu propósito falhou e Sua palavra não tem valor. Mas Paulo nega que Deus sempre planejou salvar todo o Israel étnico. Seu propósito sempre foi o de salvar um remanescente interior, mas não a totalidade de uma descendência física. Esta é a força de sua declaração que:
“...nem todos os descendentes de Israel são israelitas.” (Rm 9:6)
Existe um Israel dentro de Israel. Há um remanescente espiritual eleito dentro da nação física. John Murray resume:
“O propósito desta distinção é mostrar que a promessa da aliança de Deus não diz respeito a Israel segundo a carne, mas a este verdadeiro Israel e que, por isso, a incredulidade e rejeição do Israel étnico como um todo em nada interferiu no cumprimento do propósito da promessa e aliança de Deus. A Palavra de Deus, portanto, não foi violada.”
Basta entender que: Nem toda pessoa que é um israelita étnico-físico é um israelita espiritualmente eleito.
Doug Moo resume desta forma:
“Se o A.T. ensina que pertencendo ao Israel físico em si torna uma pessoa um membro do verdadeiro povo espiritual de Deus, então o evangelho de Paulo está em perigo. Para que fosse este o caso, o Evangelho, proclamando que somente aqueles que crêem em Jesus Cristo podem ser salvos (conferir 3:20-26), estaria contradizendo o A.T. e seria arrancado de suas raízes históricas indispensáveis. Paulo, portanto, argumenta em Romanos 9:6b-29 que pertencer ao verdadeiro povo espiritual de Deus sempre foi baseado na chamada graciosa e soberana de Deus e não na identidade étnica. Assim, Deus é livre para ‘estreitar’ os limites aparentes da eleição, escolhendo apenas alguns judeus para serem salvos (versos 6-13; 27-29). Ele também é livre para ‘expandir’ as dimensões de seu povo escolhendo os gentios (versos 24-26).”
Assim, vemos que a promessa inicial de Gênesis 12 não significa que todos os descendentes físicos de Abraão, Isaque e Jacó seriam salvos ou herdariam as bênçãos, tal como a terra, como se tudo isso fosse ocasionado por esse pacto. Devemos lembrar, diz Paulo (com adição de paráfrase), que:
“...nem todos os que são de Israel [ou seja, a descendência física] são israelitas [ou seja, a descendência espiritual]; Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos [quer dizer, herdeiros da promessa]; mas: Em Isaque será chamada a tua [física ou étnica] descendência.”
2 – Esta não é a única passagem que fornece um esclarecimento concernente a identidade do “verdadeiro” Israel, isto é, o povo para quem as promessas da aliança serão cumpridas. Talvez o texto mais explícito pode ser encontrado em Efésios 2.
Nós já vimos em Romanos 9:6-7 que simplesmente ser um descendente físico de Abraão não garante que alguém é um receptor das bênçãos da aliança. Qualquer pessoa deve crer em Jesus como o Messias. Isso sugere, portanto, que somente os crentes que são descendentes físicos de Abraão são herdeiros das bênçãos da aliança? Não. Observe comigo Efésios 2:11 em seu contexto.
Lendo este capítulo eu descobri que por causa da obra de Cristo o significado de “Israel” foi agora expandido. Não mais faz referência simplesmente aos descendentes físicos de Abraão que crêem no Messias. Certamente isto os inclui. Mas agora os crentes gentios não são mais “estrangeiros, nem forasteiros” com relação ao pacto da promessa quando se trata da comunidade de Israel, mas são “concidadãos” com eles e “co-herdeiros” de todas as bênçãos do concerto (ver Efésios 2:11-19 e 3:6).
Ao contrário de como alguns tem entendido isto, ninguém foi “substituído”. Antes, os gentios foram “incluídos”, de tal forma que agora, como diz Paulo em Efésios 2:14,15, há apenas “um novo homem”, ou seja, a Igreja.
Novamente observo que por virtude de sua obra, Cristo criou...
“...em si mesmo dos dois um novo homem.” (Efésios 2:15)
Este corpo, este novo homem, a Igreja, é o único e verdadeiro povo de Deus que herdará as promessas feitas a Abraão. Este novo homem, a Igreja, consiste de ambos os crentes, judeus e gentios, de quem são co-herdeiros de todas as promessas.
É por isso que Pedro pode pegar todos aqueles privilégios especiais e títulos reservados para o Israel veterotestamentário (Êxodo 19:5,6) e aplicá-los livremente à Igreja neotestamentária.
Este novo homem, a Igreja, diz Pedro, é a:
“...geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido.” (1ª Pedro 2:9)
O apóstolo Paulo não poderia ter dito isto com mais clareza:
“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne.
Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra.” (Romanos 2:28,29a)
A “verdadeira circuncisão”, diz Paulo, compreende a todos:
“...nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne.” (Fp 3:3)
Uma objeção levantada freqüentemente neste ponto, geralmente soa algo como isto:
“Mas quando eu leio Gênesis 12:7; 13:15,16 e 17:7,8, lá diz muito claramente que Deus estabeleceu sua aliança e legou a terra a Abraão e à sua descendência. Isso não resolve a questão de uma vez por todas?”
Não, porque também temos de perguntar:
“Tendo em vista a vinda de Jesus Cristo, o que o N.T. nos diz sobre a identidade da ‘descendência’ para quem esta promessa foi dada?
3 – A resposta e esta pergunta é encontrada não só em Romanos 9 e Efésios 2, mas também em Gálatas 3, onde Paulo faz uma declaração surpreendente. Eles nos fornece uma interpretação inspirada daquelas passagens do A.T.
No verso 16 ele declara:
“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.”
Incrível! Aqui Paulo diz inequivocamente que a “descendência” de Abraão, com quem Deus estabeleceu sua aliança e a quem a terra e todas as bênçãos foram prometidas, culminou em um único descendente físico deste, a saber, Jesus, o Messias! Jesus é “O DESCENDENTE” de Abraão, a quem Deus tinha em mente quando ele fez sua promessa de aliança.
Ao ler isto pode-se pensar que a porta foi fechada para todos, sejam judeus ou gentios, e que apenas Jesus vai herdar as promessas. Mas quando você pensa que Paulo limitou-a a apenas uma pessoa, ele “escancara” o portão das bênçãos do reino de Deus, dizendo no final de Gálatas 3:
“Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.
E, SE SOIS DE CRISTO, ENTÃO SOIS DESCENDÊNCIA DE ABRAÃO [OU SEJA, GERAÇÃO], E HERDEIROS CONFORME A PROMESSA.” (versos 28 e 29)
Aqui está o deslumbrante ponto de Paulo: Jesus, o Messias, é a única geração, ou progenitura, ou descendência de Abraão para quem as promessas foram dadas. Então, se você está “em Cristo” através da fé e, portanto, pertence a Ele, então você também é “geração” ou “descendente de Abraão” e, assim, você também é um herdeiro da promessa da aliança! É por isso que Paulo pode dizer que:
“...os que são da fé são filhos de Abraão.” (Gl 3:7)
E também que:
“...os que são da fé são benditos com o crente Abraão.” (Gl 3:9; conferir 3:14)
A conclusão de Paulo é que, numa análise final, uma etnia não tem nada a ver com quem vai ou não herdar as promessas. Nem o gênero (homem e mulher) ou status sócio-econômico (escravo ou livre). O único critério relevante é saber se você está ou não ligado pela fé na única “semente” de Abraão para quem as promessas da aliança foram destinadas. Você está “em Cristo”? Se assim for, você (independentemente da etnia, gênero ou status social) não é inferior a ninguém, é descendência de Abraão e, portanto, pertence àqueles para quem a aliança foi feita e em quem as bênçãos dessa aliança serão cumpridas.
Alguém poderia dizer:
“Mas espere um minuto. Não é o que dizem os textos do A.T. Eles dizem que as promessas só foram dadas e serão cumpridas em crentes judeus.”
Isto é correto. É por isso que Paulo disse tão claramente quanto poderia em Efésios 3:4-6, que a inclusão dos gentios como co-herdeiros é o:
“mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens (isto é, no tempo do A.T.), como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas.” (3:5)
Crentes gentios são como “judeus”, no único sentido que importa para Deus, isto é, espiritualmente (conferir Rm 2:28,29), como qualquer dos descendentes físicos de Abraão, Isaque e Jacó.
Então, sim, é verdade que somente crentes “judeus” herdarão a promessas dadas a Abraão, Isaque e Jacó. Mas os “verdadeiros judeus” são todos aqueles herdeiros que estão “em Cristo”, incluindo qualquer derivação étnica.
Existem inúmeros outros textos no N.T. que afirmam a mesma verdade (ver segunda parte desta série). Meu objetivo aqui é simplesmente esclarecer porquê motivo eu vejo a Igreja como o “novo homem”, o verdadeiro Israel de Deus em e para quem todas as promessas serão cumpridas. As promessas não serão cumpridas exclusivamente em e para uma “nação” separada dos israelitas étnicos, mas em e para todos os crentes israelitas étnicos juntamente com todos os crentes gentios étnicos, ou seja, na Igreja.

4 – Praticamente a mesma questão é vista em Romanos 11, onde Paulo usa a imagem da oliveira. O conceito da teologia da substituição é a afirmação de que Deus desenraizou e colocou de lado eternamente a oliveira que é Israel e plantou em seu lugar uma oliveira inteiramente nova, a Igreja. Todas as promessas feitas ao primeiro foram transferidas para este último.
Mas isto não é o que Paulo diz. Ele claramente afirma que há apenas uma oliveira, enraizada nas promessas dadas aos patriarcas. Nesta única árvore (isto é, neste único povo de Deus) há tanto crentes judeus (ramos naturais) como crentes gentios (ramos enxertados). Juntos, eles constituem o único povo de Deus, o verdadeiro Israel em e para quem as promessas serão cumpridas. Este único povo é, obviamente, a Igreja.
Nenhum crente judeu e nenhum crente gentio tem qualquer vantagem sobre o outro. Quando se trata de herdar as promessas, na qual está incluída a “terra”, eles são co-herdeiros. Na verdade, quando se trata de herdar as promessas, a etnia é irrelevante. O único fator relevante é o relacionamento com Jesus Cristo pela fé.
Eu disse anteriormente que há textos no N.T. que abordam o mesmo assunto, e eu, brevemente, vou tomar nota de vários deles na segunda parte desta série. Então, na terceira parte, voltarei a abordar o problema que primariamente levou a este estudo: a “terra” prometida a Israel e o atual conflito na Palestina, assim como quem possui direitos territoriais.

continua...


[01] O The Atlanta Journal-Constitution é o único grande jornal diário da cidade de Atlanta, situada na Geórgia, E.U.A.
[02] A The Drudge Report é uma agência estadunidense de notícias via internet.


Traduzido por MAC.

7 comentários:

  1. Mac, o texto é sensacional. Obrigado por tornar a minha vida mais fácil traduzindo as palavras de Sam Storms. Continue com esse trabalho edificante para os evangélicos de lingua portuguesa.

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  2. Oh meu caro Edson, é um trabalho árduo, hehe, mas além de eu gostar do que faço também sou motivado pela enorme consideração que você e outros tem por esse espaço.
    E "vamo" que "vamo" =)

    Em Cristo, Mac.

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  3. Отличная статья! большое спасибо автору за интересный материал. Удачи в развитии!!! :)
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  4. Дзякуем за наведванне :)

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  5. Thought I would comment and say neat theme, did you make it for yourself? It's really awesome!

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  6. Por que Jesus não conseguiu convencer os líderes judaicos da verdade? Penso que as pessoas, uma vez estabelecida a "tradição" (aquilo que ouviu tantas vezes transformou-se em verdade), não se deixam mover facilmente daquilo que abraçou como verdadeiro, não se dispõem a refletir sobre, elevando a tradição acima da própria Bíblia. O Amilenismo é uma excelente proposta para iluminar àqueles que foram contaminados por tradições fracas e pobres!

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  7. Muitas pessoas deixam-se vencer por tradições fracas e pobres, ou seja, por erros exaustivamente publicados. Com respeito à Escatologia, felizmente, expositores compromissados exclusivamente com a verdade de Deus, estão realizando um excelente trabalho: refiro-me à escola Amilenista. Leia e compare seus comentários com a Bíblia - nossa única regra de fé!

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